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TEXTO SELECIONADO E INSCRITO NA OLIMPÍADA BRASILEIRA DE LÍNGUA PORTUGUESA - ESCREVENDO O FUTURO.

Escola Municipal de Ensino Fundamental João XXII | 12.09.14

Escola Municipal de Ensino Fundamental João XXII
Título: Janela de Memórias
Aluna: Débora da Silva Pereira
Professora: Elisângela de Fátima Zulian

Janela de Memórias

O sol entrava pela janela, deixava à mostra apenas as cinzas do que foi uma fogueira e, naquela pequena panela redonda, apenas uma raspa do que foi a nossa janta. Aquela luz, que batia no rosto do meu pai, fazendo-o despertar anunciava que já era a hora, a hora de despertar. Saia daquele espaço, no canto da casa, que ele chamava de cama. Erguia seu corpo fraco, a roupa velha do pai, ele vestia. Meu pai trabalhava na lavoura. Cidadezinha do interior gaúcho, a gente vivia lá.
Ele, o nosso pai, negou sua cama de palha e seu velho cobertor, fora dormir naquele sujo e frio chão, apenas para ceder um conforto a nós e, provavelmente, negou-se a repousar na sua doença para colocar comida à nossa mesa. Estava muito doente, o nosso pobre pai.
Éramos três. Eu, meu irmão e uma irmã mais nova. Uma cama de solteiro, um velho cobertor e três corpos caquéticos.
O sol batia na janela daquele que chamávamos de quarto e anunciava um novo dia. A manhã anunciava novas aventuras. Papai já não estava em casa. Apenas nós e o rio. O rio era o nosso melhor amigo, o amigo das horas boas e más. Ele tomara Joaquim. Joaquim era um rapaz jovem, cheio de vida. O rio seguiu seu curso. Joaquim acabou. Às vezes a gente reza para o Joaquim. Nossa mãe ensinou a gente a rezar. A gente rezou muito depois que ela foi morar na casa de Deus!
Depois do banho de rio, da diversão, já estávamos totalmente refrescados. Todos os dias. Rio. Casa. Roupa. Roupa folgada. No verão era bom. No inverno era sofrimento. A gente não tinha roupa para o frio. O rio já não era mais o mesmo. O rio lavava a nossa sujeira.
O sabão, pequeno, duro, seco, uma pedra. A correnteza levava os tufos brancos para longe. Há muitas coisas que a correnteza leva para longe.
A escola esperava por nós todas as tardes. O nosso pai, a lavoura, assombrava com suas nuances de sofrimento. A escola, fantasia, reinos mágicos, dragões, princesas, saiam das páginas dos livros e encantavam as nossas tardes. Era um tempo de magia, um tempo de imaginação. Era o nosso maior tesouro.
Aprender era a nossa alegria. Na escola a gente conhecia mundos novos. A fome era apenas mais um obstáculo que a vida apresentava, mas o sorriso não nos faltava. Tempos melhores estavam por vir. A professora contava nas histórias. O sinal garantia a hora do lanche. Todos os dias, dava o sinal para o lanche e a gente sabia. A gente comia.
Depois da escola, já exaustos, o sol dava seu adeus e o pai chegava. A professora dava uma marmita para a gente com o resto de lanche da escola. A fome de nosso pai esperava a chegada. A marmita ajudava a enganar aquela que convivia com a gente como um membro da família. A fome. Mamãe dizia que a gente não devia pensar na fome.
Mais um dia. A lua.
A luz do sol entra pela pequena janela. Ele chama de cama, aquele canto da casa. O sol bate no rosto do meu pai, fazendo-o despertar. Ainda moramos aqui. Cidadezinha de interior.
Fonte: Escola Municipal de Ensino Fundamental João XXII